Você quer contar para alguém em inglês que está com saudade, que seu marido faz cafuné, que resolveu o problema com uma gambiarra, ou só que foi à praia anteontem. E trava, porque procura a palavra e ela não existe. Aí você conclui que "o inglês é pobre" ou que "não dá para explicar". Tenho alunas que evitam assuntos inteiros por causa de uma palavra que não tem tradução.
A verdade é que quase nada é intraduzível. O que não existe é a palavra única. A ideia você sempre consegue dizer, às vezes com duas ou três palavras, às vezes com uma frase. E aprender a fazer isso é uma das habilidades mais importantes de quem fala uma segunda língua. Neste post você vai ver as palavras que mais travam o brasileiro e o jeito de dizer cada uma em inglês. Bora lá?
Sentimentos e carinho
Saudade. A mais famosa. Em inglês não tem substantivo, mas tem o verbo "miss", e ele resolve quase tudo:
"I miss you so much." Estou com muita saudade de você.
"I miss the way things used to be." Tenho saudade de como as coisas eram.
Repara que "miss" é verbo, então a frase muda de forma: em vez de "estou com saudade de X", é "eu sinto falta de X". A ideia é a mesma.
Cafuné. Não existe palavra. Você descreve a ação:
"She was gently running her fingers through my hair." Ela estava fazendo cafuné em mim.
Xodó. O mais perto é "favorite" ou "the apple of my eye":
"That dog is the apple of her eye." Aquele cachorro é o xodó dela.
Apaixonar-se. Existe "fall in love", que é expressão, não verbo único. Funciona igual:
"They fell in love on the first trip." Eles se apaixonaram na primeira viagem.
Dica: quando a palavra não existe, pergunta: o que essa palavra descreve? Uma ação, um sentimento, uma situação? Descreve isso. O nativo entende a descrição melhor do que entenderia a palavra.
Jeito brasileiro de resolver as coisas
Gambiarra. Solução improvisada. Em inglês, "quick fix", "workaround" ou, na fala, "a hack":
"We came up with a quick fix using duct tape." A gente fez uma gambiarra com fita adesiva.
Jeitinho. Não tem palavra. Dependendo do contexto, "find a way around it" (dar um jeito) ou "pull some strings" (usar contatos):
"Don't worry, we'll find a way around it." Não se preocupa, a gente dá um jeitinho.
Caprichar. O verbo não existe, mas "go all out" ou "put extra effort into it" dizem a mesma coisa:
"She really went all out on the birthday cake." Ela caprichou no bolo de aniversário.
Mutirão. Trabalho coletivo. O mais próximo é "community effort" ou "a group effort":
"The neighbors organized a group effort to clean the park." Os vizinhos fizeram um mutirão para limpar o parque.
Fluência não é saber a palavra para tudo. É conseguir dizer tudo com as palavras que você sabe.
Tempo e rotina
Anteontem. Em inglês são três palavras: "the day before yesterday":
"I went to the beach the day before yesterday." Fui à praia anteontem.
Madrugada. Não tem uma palavra para o período entre meia-noite e o amanhecer. Você fala a hora, ou "the middle of the night", ou "early morning":
"I woke up at three in the morning and couldn't go back to sleep." Acordei de madrugada e não consegui voltar a dormir.
Passear. Não existe verbo único. Depende de como você passeia:
"Let's go for a walk." Vamos dar uma volta.
"We spent the afternoon wandering around downtown." Passamos a tarde passeando pelo centro.
Saideira. A última bebida antes de ir embora. Em inglês, "one for the road":
"One for the road?" Uma saideira?
Dica: "the day before yesterday" e "the day after tomorrow" (depois de amanhã) parecem longos, mas o nativo fala rápido, como se fosse uma palavra só. Você também vai se acostumar.
Pessoas e jeito de ser
Friorenta / calorenta. Não tem adjetivo. Você diz que sente frio ou calor com facilidade:
"I get cold really easily." Eu sou friorenta.
"He's always hot, even in winter." Ele é calorento, mesmo no inverno.
Sem-vergonha / cara de pau. O mais próximo é "shameless" (sem vergonha) ou "He's got some nerve" (que cara de pau):
"He asked for more money? He's got some nerve!" Ele pediu mais dinheiro? Que cara de pau!
Gente boa. "A good person" funciona, mas o tom brasileiro fica melhor com "a great guy" ou "a sweetheart":
"Your brother is such a sweetheart." Seu irmão é gente boa demais.
Engraçadinho. Aquele que quer ser engraçado e não é. Em inglês, "a smart aleck" ou "a wise guy":
"Don't be a smart aleck." Não seja engraçadinho.
Situações do dia a dia
Cadê. Não existe como palavra. É "Where is" ou "Where's":
"Where's my phone? It was right here." Cadê meu celular? Estava bem aqui.
Ficar (com alguém). O "ficar" brasileiro, sem compromisso, não tem palavra única. Se foi uma noite, "we made out" (beijar) ou "we hooked up" (mais íntimo). Se está rolando, "we're seeing each other" ou "it's casual":
"We're just seeing each other. It's nothing serious." A gente está ficando. Nada sério.
Pois é. Concordância resignada. "Yeah" e "I know, right?" e "Tell me about it" cobrem o sentido:
"The traffic was terrible." "Tell me about it." "O trânsito estava horrível." "Pois é."
Chulé. Não tem palavra. É "smelly feet" ou "foot odor":
"Take off your shoes outside. You have smelly feet." Tira o sapato lá fora. Você está com chulé.
Dica: a maioria dessas "palavras que não existem" vira uma frase curta de duas ou três palavras. Não é limitação do inglês. É só outro jeito de organizar a mesma ideia.
O padrão por trás de tudo
Repara que nenhuma dessas palavras ficou sem solução. Saudade virou verbo, cafuné virou descrição, anteontem virou três palavras, gambiarra virou "quick fix". A ideia sempre passa. O que muda é a embalagem.
Da próxima vez que travar numa palavra sem tradução, não desiste da frase. Pergunta: o que eu quero dizer com essa palavra? E diz isso. A palavra não existe, mas a ideia existe, e você já sabe explicar ideias.



